Aos nove meses de gestação, minha mãe ainda não havia sentido nenhuma contração. A bolsa não estourou e eu, lá dentro, parecia que estava fazendo a primeira e única escolha acertada da vida: não nascer. Enquanto isso, do lado de fora do útero, meus pais discutiam com o obstetra o melhor dia para puxar uma neném que não estava na posição correta, tinha o cordão umbilical enrolado no pescoço e ainda não tinha demonstrado o menor interesse em vir ao mundo. Parece que eu estava adivinhando.
Minha primeira escolha errada, lembro bem, foi no jardim da infância, quando escolhi as amizades. Aos dez anos, uma amiguinha antiga perguntou se eu gostava de Eduardo, um garotinho da escola. Diante da negativa, ela lamentou: "Que pena, a gente iria disputá-lo". Aos dezoito anos, a mesma amiguinha, na praia, pôs a mão do meu namorado em seu peito.
Na adolescência, mais decisões, mais erros. Aos quinze anos entrei em um grupo de teatro, onde permaneci nos cinco anos seguintes. Não poderia ter tido idéia pior: o grupo era hostil, não me aceitava, criticava, podava e inferiorizava, e eu, ingênua, sofria por não me adequar a personalidade que eles queriam que eu tivesse. O fato é que até hoje eu me pergunto: "Por quê, meu Deus, eu não escolhi sair?".
Na infância, quando eu me imaginava exercendo uma profissão, pensava em ser dona de uma escola e dar aulas para crianças, estudar tupi-guarani e ser pesquisadora indigenista, fazer parte de um organismo internacional de ajuda humanitária ou ser jornalista e trabalhar na Editora Abril. Então veio o vestibular e escolhi estudar Direito, pois era apaixonada por um vestibulando e achava que nós estudaríamos juntos, casaríamos e seríamos felizes para sempre. Hoje eu estou com o canudo na mão sem saber o que fazer com ele, enquanto meu ex-amado não passou em Direito, formou-se em Administração e hoje é noivo de uma moça que felizmente não sou eu.
Foram muitas outras escolhas infelizes. Entre o namorado infiél e alcoólatra e o pretendente bonitão, alto, rico, carioca, fisioterapeuta, e bem intencionado eu escolhi... o primeiro! Na hora da matrícula no útimo semestre da faculdade, entre todos os orientadores disponíveis e o mais incompreensivo, fechei com este, claro! Cada vez que a vida me apresentou opções eu fiquei com a pior, hoje eu me pergunto por quê. Se você, caro leitor, cruzar as mãos com os punhos cerrados e disser "Nesta ou nesta?!", eu sortearei a mão vazia, acredite.