sábado, 19 de junho de 2010

Covardia

"Amaranta, cuja dureza de coração a espantava, cuja concentrada amargura a amargava, foi revelada no último exame como a mulher mais terna que jamais pudesse ter existido e compreendeu, com uma penosa clarividência, que as injustas torturas a que submetera Pietro Crespi não eram ditadas por uma vontade de vingança, como todo mundo pensava, nem o lento martírio com que frustara a vida do Coronel Generido Márquez tinha sido determinada pelo fel ruim de sua amargura, como todo mundo pensava, mas sim que ambas as ações tinham sido uma luta de morte entre um amor sem medidas e uma covardia invencível, e triunfara, finalmente, o medo irracional que Amaranta sempre tivera de seu próprio e atormentado coração"

CEM ANOS DE SOLIDÃO
Gabriel Garcia Marquez

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A arte de escolher mal

Aos nove meses de gestação, minha mãe ainda não havia sentido nenhuma contração. A bolsa não estourou e eu, lá dentro, parecia que estava fazendo a primeira e única escolha acertada da vida: não nascer. Enquanto isso, do lado de fora do útero, meus pais discutiam com o obstetra o melhor dia para puxar uma neném que não estava na posição correta, tinha o cordão umbilical enrolado no pescoço e ainda não tinha demonstrado o menor interesse em vir ao mundo. Parece que eu estava adivinhando.

Minha primeira escolha errada, lembro bem, foi no jardim da infância, quando escolhi as amizades. Aos dez anos, uma amiguinha antiga perguntou se eu gostava de Eduardo, um garotinho da escola. Diante da negativa, ela lamentou: "Que pena, a gente iria disputá-lo". Aos dezoito anos, a mesma amiguinha, na praia, pôs a mão do meu namorado em seu peito.

Na adolescência, mais decisões, mais erros. Aos quinze anos entrei em um grupo de teatro, onde permaneci nos cinco anos seguintes. Não poderia ter tido idéia pior: o grupo era hostil, não me aceitava, criticava, podava e inferiorizava, e eu, ingênua, sofria por não me adequar a personalidade que eles queriam que eu tivesse. O fato é que até hoje eu me pergunto: "Por quê, meu Deus, eu não escolhi sair?".

Na infância, quando eu me imaginava exercendo uma profissão, pensava em ser dona de uma escola e dar aulas para crianças, estudar tupi-guarani e ser pesquisadora indigenista, fazer parte de um organismo internacional de ajuda humanitária ou ser jornalista e trabalhar na Editora Abril. Então veio o vestibular e escolhi estudar Direito, pois era apaixonada por um vestibulando e achava que nós estudaríamos juntos, casaríamos e seríamos felizes para sempre. Hoje eu estou com o canudo na mão sem saber o que fazer com ele, enquanto meu ex-amado não passou em Direito, formou-se em Administração e hoje é noivo de uma moça que felizmente não sou eu.

Foram muitas outras escolhas infelizes. Entre o namorado infiél e alcoólatra e o pretendente bonitão, alto, rico, carioca, fisioterapeuta, e bem intencionado eu escolhi... o primeiro! Na hora da matrícula no útimo semestre da faculdade, entre todos os orientadores disponíveis e o mais incompreensivo, fechei com este, claro! Cada vez que a vida me apresentou opções eu fiquei com a pior, hoje eu me pergunto por quê. Se você, caro leitor, cruzar as mãos com os punhos cerrados e disser "Nesta ou nesta?!", eu sortearei a mão vazia, acredite.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Angústia

Uma agulha imensa, dentro de um coração. Um coração dentro de um círculo preto.
Inspira: A agulha atravessa o coração. Expira: a agulha volta e o coração cai no buraco negro. Inspira...

"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu?" Roda-Viva [Chico Buarque]

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eu e Minhas Desventuras

JULHO / 2008

[Cenário: Farmácia Pague Menos, enquanto era consultada sobre um creme para pentear cabelos cacheados]

Pretendente: "Você é um brigadeiro"
Eu: "Por quê? Sou uma delícia?"
Pretendente: "Você é doce, mas estou de regime"

ABRIL / 2009
[Cenário: Zoológico Municipal do Recife]

Amigo: "Lu, esse vestido ficou bem nas fotos"
Eu: "Ah, quer dizer que estou bonita?"
Amigo: "Quer dizer que o vestido é fotogênico"


JULHO / 2009

[Cenário: Enquanto eu leio uma matéria de revista na porta do banheiro, minha irmã escova os dentes]

Eu: "Gerard Butler estudou Direito na Universidade de Glasgow, Escócia, e exerceu durante alguns anos a advocacia. Enquanto desempenhou esta função, passou a maior parte do tempo deprimido e tornou-se alcoolatra. Após ter sido despedido, começou a representar. A partir daí, deixou de beber e não coloca uma gota de álcool na boca há mais de 9 anos."

Irmã: "Se você soubesse o teria conhecido enquanto ainda era advogado"

Eu: "Ele estaria bêbado"

Irmã: "Você teria mais chances com um bêbado do que com um ator de Hollywood"

domingo, 14 de junho de 2009

Ontem, Igor me convidou para acompanhá-lo a um casamento. Eveline emprestou o vestido mais sofisticado que ela tem. Elize levou uma maleta com sua maquiagem e me maquiou na faculdade mesmo, enquanto seu namorado esperava resignado para comemorarem o dia dos namorados. Depois do casamento, Jayme me chamou para encontrá-lo em outro evento.
Hoje, Carol disse que a primeira providência das férias será me ajudar a arrumar o meu quarto. Saí de uma festa que terminou cedo e fui andando pra casa de Marcos. Ele me trouxe em casa, a 6 km de onde estávamos, mesmo atrasado para um compromisso vizinho à sua rua. Ainda estava no carro quando Guto ligou avisando que deixara na minha portaria um DVD dos Beattles. Artur também ligou, perguntando se eu gostaria de conhecer umas amigas dele que o aguardavam num bar. Fui e fiz mais seis simpáticas novas amizades.
Foram dois dias intensos, de pequenos acontecimentos e grandes gestos sucessivos. Hoje eu deitei leve e, feliz, agradeci a Deus por ter amigos.
Há uma semana, assisti um discurso emocionado de Alê, em sua festa de aniversário. Ela agradeceu todo apoio e carinho que recebeu quando esteve enferma, com tuberculose. O evento era pra comemorar o aniversário, a saúde, para agradecer a Deus a cura e os amigos que ela nem sabia que tinha. Eu chorei muito ouvindo Alê.
Não faz muito tempo, eu tinha outros amigos. Devia ter desconfiado: dificilmente eu recebia algum convite. Eu achava que aqueles amigos eram um pouco desatenciosos. Um dia, também fiquei muito doente. E tive a surpresa inversa. Pedi a Deus que quando estivesse boa, Ele me presenteasse com verdadeiras amizades.
Em 2007, zerei os contadores. Comecei um curso de inglês. Entrei no diretório acadêmico. Mudei de turno na faculdade. Aliás, comecei uma nova faculdade. E apartir daí, conheci meus atuais amigos de infância. Deus ouviu a minha oração, enxugou as minhas lágrimas, e colocou em minha vida verdadeiros e maravilhosos amigos. No dia da festa de Alê, Artur foi pegar um guardanapo, Biu me deu um abraço e Raíssa disse que, se tudo tivesse acontecido hoje, meus atuais amigos fariam diferente.
Hoje, 13 de junho de 2009, eu deitei lembrando do que Raíssa me disse e sorri, certa de que fui ouvida por Deus.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Toda quarta-feira de cinzas eu lembro, invariavelmente, da sensação que este dia trazia quando eu era criança, em Olinda. Eu acordava cedo, achando o dia mais bonito. E da calçada de casa, acompanhava os turistas descendo as ladeiras carregados de malas, ventiladores e colchonetes. De tardezinha, via a saída da Troça Bacalhau do Batata. Com a derradeira orquestra do carnaval, ela varria os últimos foliões e devolvia a tranquilidade monástica habitual ao sítio histórico. UFA! Acabou o carnaval!

Faz uns dez anos que eu não passo o carnaval lá, pois sempre me despeço do meu pai antes do Cariri receber as chaves de Olinda. Mas ainda hoje não há um só ano em que eu não tenha as mesmas lembranças e o mesmo sentimento. UFA! Acabou o carnaval! =]